A ÉTICA ANIMAL NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA E NO DEBATE CONTEMPORÂNEO BRASILEIRO
Palavras-chave:
alteridade, animais, história da filosofia, ética animal, filosofia brasileira.Resumo
Ao longo dos séculos de história da filosofia canônica, foram produzidos argumentos com a intenção de diferenciar humanos dos animais de outras espécies e, assim, justificar a exploração animal para as mais variadas finalidades, “a serviço de um certo e suposto bem-estar humano do homem”, relembra Derrida, em O animal que logo sou (2002, p. 51). Diante do problema de legitimação da violência contra os outros animais, o presente trabalho objetiva apresentar perspectivas de filósofas e de filósofos que desde a Antiguidade têm se posicionado favoravelmente quanto aos animais de outras espécies. Por meio das obras do filósofo Jacques Derrida dedicadas à questão da animalidade, da professora Sônia T. Felipe, pioneira no estudo da ética animal e ambiental no Brasil, e de outras referências filosóficas relevantes, passadas e contemporâneas, foi possível mapear e reconstituir um panorama filosófico da Antiguidade até os tempos atuais favorável a uma perspectiva ética que considere todas as espécies animais. Nesse sentido, cabe ressaltar o trabalho de eticistas brasileiras, como Daniela Rosendo, Tânia A. Kuhnen, Maria Alice da Silva, formadas em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e alunas de Sônia T. Felipe quando professora da instituição, que hoje conta com Janyne Sattler no corpo docente representando e repensando as relações entre humanos e animais de outras espécies. A obra Ética e Direitos dos Animais (2018), organizada pelos professores Luiz Paulo Rouanet e Maria Cecília Maringoni de Carvalho, reúne textos de importantes representantes da área como, além das autoras citadas acima, Georgia Amitrano, professora da UFU; Maria Clara Dias, professora da UFRJ, que assina o livro Ética Animal: um novo tempo (2019) com Fábio A. G. Oliveira, professor da UFF. Dessa forma, após percorrer um breve panorama da ética animal na história da filosofia, nos debruçaremos sobre a abundante contribuição filosófica brasileira para o campo, o que nos leva a concluir que a tradição filosófica avessa à possibilidade de uma ética animal, nas palavras de Derrida, em Violência contra os animais, presente na obra De que amanhã… Diálogos (2004, p. 82), “não foi homogênea, decerto, mas hegemônica, e assumiu aliás o discurso da hegemonia, do domínio do mesmo” e, por isso, o desconhecimento geral a respeito da vasta consideração dos animais presente tanto na história da filosofia quanto no Brasil contemporâneo. Após essa visão panorâmica e histórica, torna-se possível observar posicionamentos, desde a Antiguidade, tanto que vinculam a violência contra animais à violência contra humanos (Porfírio, Plutarco, Rousseau, e.g.), quanto que contestam as diferenças entre humanos e animais (Plutarco, Montaigne, e.g.), perspectivas essas que encontram eco nas teorias feministas contemporâneas, conforme aponta a professora e filósofa Sônia T. Felipe, no artigo Somatofobia: violência contra animais humanos e não-humanos; as vozes dissidentes na ética antiga (2007). Contudo, permanecem diferenças essenciais entre viventes, o que ressalta a importância de perspectivas éticas que acolham a alteridade e a singularidade de cada vivente.
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