JEAN MAUGÜÉ E A FILOSOFIA NO BRASIL: A HISTÓRIA DA FILOSOFIA COMO ANTÍDOTO PARA O NOVIDADEIRISMO FILOSÓFICO BRASILEIRO

Authors

  • WALLACE TAVARES ALVES SÁ Author

Keywords:

Jean Maugüé, história da filosofia, Agostinho de Hipona, ceticismo, Oswaldo Porchat Pereira

Abstract

Este trabalho parte da reflexão de Jean Maugüé, filósofo francês que lecionou na recém criada Faculdade de Filosofia da USP nos anos 1930, sobre as condições de possibilidade de um filosofar genuinamente brasileiro. Em O ensino da Filosofia e suas diretrizes (1955), Maugüé não propõe a invenção de uma filosofia (brasileira) exótica ou artificialmente localizada, mas defende que a história da filosofia é condição de possibilidade do próprio filosofar: é ela que oferece os  "pontos fixos" a partir dos quais o pensamento pode se orientar em qualquer época. Contra essa exigência de formação paciente, Maugüé identifica no ambiente intelectual brasileiro um traço que  chamamos aqui de "novidadeirismo" (tendência a acolher com entusiasmo as correntes filosóficas  mais recentes e descartá-las com a mesma rapidez, sem o cotejo necessário com os problemas que as antecipam ou contradizem). Contra esse traço, propõe o "tato histórico" e o "discernimento", ou  seja, a capacidade de situar o novo em relação à tradição, reconhecendo genealogias e recorrências,  de modo que os clássicos funcionem não como catálogo de doutrinas superadas, mas como  interlocutores vivos do presente. É como exercício concreto desse programa que propomos colocar em diálogo Agostinho de Hipona e Oswaldo Porchat Pereira em torno de um problema filosófico preciso e historicamente persistente: o ceticismo. Se o "tato histórico" de Maugüé consiste em  situar o novo em relação ao antigo, poucos casos o demonstram com mais clareza do que a  aproximação entre um autor do século IV-V e um dos mais importantes filósofos brasileiros do século XX, separados por quinze séculos mas unidos pelo mesmo problema. Em Contra os Acadêmicos (386 d.C.), Agostinho enfrenta a posição da Nova Academia, para a qual a suspensão do assentimento diante da obscuridade das coisas seria a única atitude do sábio livre de erro; sua resposta, radicalizada em De vera religione, é a de que a própria dúvida atesta uma verdade indubitável: a existência de quem duvida; de modo que o ceticismo se refutaria a si mesmo. Já Porchat, a partir de sua leitura do pirronismo antigo, sustenta que a diaphonia insuperável entre os sistemas filosóficos dogmáticos torna a suspensão do juízo o corolário natural da experiência filosófica, propondo o primado do Mundo e da Vida sobre o discurso totalizante da filosofia. O  confronto entre os dois pensadores não visa a uma resolução definitiva do problema, tampouco a fazer "vencer" a posição agostiniana ou porchatiana. Interessa-nos, sobretudo, indicar uma via de aprofundamento: se a leitura tradicional aproxima a suspensão porchatiana da epoché acadêmica que Agostinho contesta, é preciso matizar essa aproximação, já que a diaphonia em Porchat descreve antes uma experiência reiterada de conflito do que uma declaração dogmática sobre a impossibilidade da verdade. Essa ressalva, ao invés de enfraquecer o exercício comparativo,  reforça a tese central de Maugüé, a saber: colocar um clássico como Agostinho em diálogo crítico com um pensamento brasileiro contemporâneo não é praticar filosofia "importada", mas realizar precisamente o tipo de filosofar situado e enraizado que Maugüé preconizava. 

Published

2026-09-28