DE UMA ARQUEOGENEALOGIA DE FOUCAULT EM RANCIÈRE: RELAÇÕES ENTRE O DISCURSO E A FICÇÃO.
Palavras-chave:
Jacques Rancière; Michel Foucault; Discurso; Ficção; Arqueogenealogia.Resumo
A bibliografia mais corrente sobre a relação entre as filosofias de Michel Foucault e Jacques Rancière, aproxima-os a partir da fase arqueológica de Foucault: entre os conceitos de a priori histórico, de Foucault, e partilha do sensível, de Rancière, ou entre as epistemes foucaultianas e os regimes rancierianos. O objetivo, contudo, é estender essa tensão entre os autores para a fase genealógica de Foucault, isto é, para seus trabalhos da década de 1970, baseado nos conceitos de discurso e ficção. O problema é que na fase genealógica de Foucault, apesar do desfoque no conceito de discurso, ele, o discurso, passa a aparecer entremeado em relações de poder, conjurando-o, reafirmando-o, dando-lhe novas formas; é o feixe linguístico da relação entre saber e poder, possuindo efeitos materiais e concretos, tal que não se isenta de ser uma prática discursiva. Por sua vez, para Rancière, a ficção é uma estrutura de racionalidade que opera como uma estrutura do narrar, responsável pela concatenação da causalidade, isto é, organiza eventos, acontecimentos, fatos e a história; dá inteligibilidade para o mundo empírico e, com isso, é capaz de operar rearranjos materiais sobre a sensibilidade. Há pontos cruzados de aproximações e distanciamentos entre ambas as noções, contudo, ambos conceitos estão conectados pois o que está em jogo nessa relação entre a linguagem e a prática são os modos de existir, os modos de vida dos indivíduos. Vale observar que Rancière não ignora as relações de poder que se tornam o enfoque de Foucault em suas pesquisas genealógicas; na verdade, n’A partilha do sensível Rancière identifica inevitavelmente nas relações os problemas de ordem material, isto é, sensível, haja vista sua filosofia se orientar sobre a posição topológica que cada indivíduo ocupa na sociedade – bem como na comunidade, como ele diz, estética. Sobre sua concepção de sensível está em jogo, sobretudo, uma interpretação do conceito de estética kantiano “eventualmente revisitado por Foucault”, como afirma, em que o a priori determina aquilo que se dá a sentir e experienciar; retomando, assim, a arqueologia foucaultiana. A hipótese que se espera demonstrar é que encontramos na filosofia de Rancière não somente uma aproximação arqueológica com Foucault, tampouco se pretende defender que a aproximação decorre do afastamento de ambos da filosofia de Althusser – que atravessa esse debate sobre o discurso –, mas, antes, que há em Rancière uma relação crítica com o arco arqueogenealógico peculiar da teoria foucaultiana. Ora, estendendo isso para os conceitos em debate – discurso e ficção – é possível observar que a ficção opera tal como um discurso, sua distinção é revelada somente enquanto se pensa nos meios que projeta a subversão de uma certa partilha da sensibilidade e em como faz a reorganização material da vida, dos modos de visibilidade e pensabilidade. A ficção enquanto discurso revela que, assim como o discurso, ela é aquilo pelo que se luta e com que se luta: ela afirma ou nega os modos de vida e uma certa partilha do sensível.
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