A “IDEOLOGIA NACIONAL” COMO PROBLEMA FILOSÓFICO EM ÁLVARO VIEIRA PINTO.
Palavras-chave:
AVP, Marx, Nação, IdeologiaResumo
Em suas famosas Teses sobre Feuerbach, Marx sintetizou o papel que o conceito de práxis viria a ter em toda a filosofia e em todo pensamento político herdeiro da revolução operada nas ciências humanas por sua obra e, por consequência, sua interpretação da igualmente revolucionária filosofia hegeliana. Nas teses 8 e 11, principalmente, vemos explicitada uma postura radical e profundamente atual no campo histórico-político, é claro, mas essa postura diz respeito de forma igualmente profunda ao campo epistemológico. Pois se “A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis.” (tese 8) e “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.” (tese 11), então está claro que para a filosofia, um novo problema, gestado pelo materialismo dialético e sua herança hegeliana, se coloca: a Razão não é um processo de abstração e reflexão críticos apenas, mas, para ser verdadeiramente racional, precisa estar dialeticamente imbricada na práxis social e histórica. Tomando a sério estas formulações, e compreendendo que tanto para Marx e Engels quanto para Hegel, a consciência e o conhecimento são processos inerentemente históricos, ou seja, se dão no movimento de exteriorização e superação do pensamento naquilo que Hegel chamou de Espírito Objetivo, torna-se, portanto, necessário retomar um debate, fortemente combatido em sua legitimidade, sobretudo após o fim da União Soviética: o estatuto filosófico do conceito de Ideologia. Argumentamos, portanto, na linha de Álvaro Vieira Pinto, que a ideologia nacional, no sentido hegeliano-marxista, pode ser considerada como autoconsciência da cultura na sua fase nacional – determinada superestrutura de um determinado grau de internacionalização da divisão do trabalho – instância positiva da crítica marxista. Ora, como escreve Vieira Pinto em Ideologia e desenvolvimento nacional, “todo processo histórico supõe a ideia segundo a qual é compreendido, e, portanto, exige uma consciência segundo a qual a ideia é ideia” e “para que se torne possível, e depois real, a unidade imprescindível ao rendimento ótimo do processo nacional, é necessário que aquilo que em cada consciência privada é ideia, seja socialmente ideologia.” Portanto, é na socialização, seja pelo trabalho ou pelo reconhecimento na linguagem, que o indivíduo concreto se torna objeto para si mesmo e, ao mesmo tempo, sua existência social age sobre si como força exterior. No entanto, se o Estado Nação, livre de toda a mistificação apriorística do “caráter dos povos” pode ser compreendido nesta chave como um universal concreto do grau de intensificação da divisão do trabalho – avanço das forças produtivas –, em que medida é possível a construção de uma Ideologia Nacional que não distancie, na verdade, a organização social da perspectiva de superação da sua forma histórica? Como conciliar a ciência histórica – universal – do processo de exteriorização produtiva com a consciência ideológica - de um “povo” - da nação? Em que medida a cultura, no caso a brasileira, é consequência ou causa das incipientes ideologias nacionais que permeiam sua história?
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