A ILUSÃO DA FORMA E A CONSTITUIÇÃO DA FILOSOFIA BRASILEIRA: CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO DO PENSAMENTO AMERÍNDIO
Palavras-chave:
Filosofia Brasileira, Pensamento Ameríndio, Perspectivismo, Teko Porã, Historiografia da FilosofiaResumo
Perguntar se o pensamento indígena brasileiro é filosofia ou apenas mito, cultura ou etnologia revela menos sobre esse pensar do que sobre os critérios históricos que autorizam o que se entende filosofia. Essa pergunta pressupõe, em geral sem exame crítico, que filosofia equivale à forma greco-europeia: escrita alfabética, argumentação linear e estrutura do tratado, o mesmo “conhecimento visível, letrado” que Cristine Takuá (2018) contrapõe ao saber que habita nos cantos, danças e espiritualidade dos povos nativos em seu texto Teko Porã: o sistema milenar educativo de equilíbrio. Assim, um filtro prévio impede o reconhecimento de outras formas de saber antes mesmo de se examinar seu conteúdo. A hipótese deste trabalho é que a recusa do estatuto filosófico ao pensamento ameríndio se baseia, sobretudo, em uma exigência de forma. Podemos testar essa hipótese em dois movimentos. No primeiro, analisa-se a hesitação de Claude Lévi-Strauss, francês, logo europeu, em chamar de filosofia as elaborações nativas. Sua resistência não se deve à falta de rigor ou de complexidade reflexiva, mas ao estranhamento diante de uma forma não greco-europeia e não escrita sob o modelo do tratado. No segundo, toma-se o perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro como contraprova. Ao inverter os eixos da metafísica ocidental e propor o multinaturalismo, em que a humanidade é a condição geral enquanto os corpos variam, esse pensamento realiza uma operação ontológica rigorosa, distinta do relativismo cultural e independente da forma do tratado acadêmico. As reflexões de intelectuais e lideranças indígenas confirmam o caráter filosófico dessas elaborações. Em Cristine Takuá, o Teko Porã aparece como conceito filosófico, político e espiritual de equilíbrio e boa maneira de viver, contraposto ao Tekó Vai, sendo este o mal viver do consumo e da desconexão com a natureza. Em Davi Kopenawa, a crítica ao “povo das mercadorias” denuncia a perda de sabedoria e a devastação da floresta, ao mesmo tempo em que rejeita a pretensão dos brancos de serem importantes porque “possuem os livros”. Em Gersem Baniwa, a defesa da autonomia e dos conhecimentos tradicionais reafirmam o protagonismo indígena como produção de saber. Negar a essas matrizes o estatuto filosófico por sua transmissão oral e performativa reproduz o gesto pelo qual a historiografia da filosofia brasileira se constituiu como moderna e nacional. Como mostram as críticas de Kopenawa e Takuá, a adesão ao cânone europeu e ao positivismo exigiu silenciar o pensamento indígena. Reconhecer essas elaborações como filosofia não é mera inclusão, mas crítica à própria narrativa fundadora da disciplina no Brasil.
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