QUEM INVENTOU O BRASIL? IMAGENS, COLONIALIDADE E ANTROPOFAGIA
Palavras-chave:
História do Brasil, Pinturas Históricas, Colonialismo, AntropofagiaResumo
"O Brasil não existia. O Brasil é uma invenção, e essa invenção nasce exatamente da invasão." A afirmação de Ailton Krenak, no documentário Guerras do Brasil constitui o ponto de partida deste trabalho, que propõe um percurso estético-filosófico pelas imagens e narrativas através das quais o Brasil foi historicamente inventado, representado e naturalizado. Sem pretender reconstituir uma história da arte brasileira, o trabalho interroga como determinadas imagens participam da produção de uma ideia de país, de seus sujeitos e de sua própria história. O percurso parte das pinturas rupestres da Serra da Capivara, deslocando o início da narrativa para um tempo anterior à própria constituição do território como "Brasil". A chegada dos europeus será então abordada não como um acontecimento inaugural, mas como processo de invasão, conquista e reorganização violenta de mundos previamente existentes. Obras como A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, e pinturas de Jean-Baptiste Debret serão tomadas como formas de pensamento que produzem maneiras específicas de ver os acontecimentos que registram: a conquista pode aparecer como encontro; a desigualdade, como ordem; a violência, como paisagem. Releituras contemporâneas dessas imagens serão mobilizadas como gestos de deslocamento da memória e de contestação das formas coloniais de representação. A hipótese é que a colonização, além de se apropriar de territórios e sujeitar corpos, impõe regimes de visibilidade e inteligibilidade capazes de definir quais sujeitos, histórias e saberes podem ser reconhecidos. A reflexão de Paulo Margutti (2023) sobre a historiografia da filosofia brasileira ilustra esse ponto: ao identificar a permanência de uma autoimagem negativa e de critérios etnocêntricos na avaliação de nossa produção filosófica, o autor evidencia como a colonialidade pode sobreviver também nos modos pelos quais interpretamos aquilo que produzimos. É nesse ponto que o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, ganha centralidade — essa autoimagem negativa é, precisamente, uma das heranças que a antropofagia se propõe a devorar. Se o Brasil é uma invenção, a antropofagia permite perguntar o que fazer com os signos e formas de representação que constituíram essa invenção. Ela será compreendida como gesto de apropriação e deslocamento, e não como afirmação de uma essência nacional: devorar o que foi herdado, inclusive a própria herança colonial, sem simplesmente recusá-la ou reproduzi-la. A antropofagia torna-se, então, uma possibilidade de reabrir a invenção do Brasil. O percurso se encerra com a provocação oswaldiana da "contribuição milionária de todos os erros", sugerindo que talvez a questão não seja descobrir o verdadeiro Brasil, mas disputar os modos de inventá-lo.
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