VIRTUDE E PERSUASÃO NA FILOSOFIA ARISTOTÉLICA, UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ETHOS

Autores

  • FERNANDA FACUNDES Autor
  • CÉSAR AUGUSTO MATHIAS DE ALENCAR Autor

Palavras-chave:

Aristóteles, ethos, retórica, virtude, persuasão.

Resumo

O presente trabalho investiga a relação entre virtude e persuasão na filosofia aristotélica,  tomando como problema central a construção discursiva do ethos do orador e sua relação com o  caráter moral. Na Retórica, Aristóteles apresenta três meios de persuasão (pisteis) produzidos pelo  discurso: logos, pathos e ethos. Este último ocorre quando o discurso é formulado de tal maneira  que torna aquele que fala digno de confiança perante o auditório. Nesse sentido, o caráter assume  uma função propriamente persuasiva, uma vez que a confiança depositada no orador pode interferir  no julgamento acerca daquilo que é apresentado. Diante disso, o problema que orienta esta  investigação consiste em compreender em que medida o caráter construído discursivamente precisa  corresponder ao caráter moral efetivo daquele que fala. O objetivo é investigar como Aristóteles concebe a construção discursiva do ethos do orador e  examinar sua relação com o caráter moral. Para isso, parte-se da concepção aristotélica de caráter  apresentada na “Ética a Nicômaco”, especialmente da relação entre virtude (arete), disposição,  escolha e prudência (phronesis).
Busca-se compreender em que sentido um agente pode ser  considerado virtuoso e como seu caráter se constitui a partir de disposições relacionadas às ações  e escolhas. Em seguida, a análise volta-se à Retórica, sobretudo à caracterização do ethos enquanto  prova produzida pelo discurso. Em Retórica II, Aristóteles identifica phronesis, arete e eunoia como  causas pelas quais os oradores se tornam dignos de confiança, estabelecendo uma relação entre persuasão e manifestação discursiva de determinadas qualidades daquele que fala. A hipótese sustentada é que o ethos enquanto prova retórica não pode ser simplesmente identificada  com o caráter moral enquanto disposição do agente. Embora Aristóteles
mobilize conceitos  pertencentes à sua filosofia prática para caracterizar a credibilidade do orador, a manifestação  discursiva de prudência, virtude e benevolência não parece garantir, por si mesma, que aquele que  fala possua efetivamente essas qualidades como disposições de caráter. Surge, assim, uma tensão  entre ser virtuoso e apresentar-se discursivamente como alguém digno de confiança. Pretende-se, por fim, demonstrar que a análise do ethos permite compreender tanto uma aproximação quanto uma distinção entre ética e retórica no pensamento aristotélico. A construção  da credibilidade do orador coloca em questão se a eficácia persuasiva do ethos depende da virtude efetiva daquele que fala ou da capacidade do discurso de torná-la manifesta perante o auditório.

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Publicado

2026-10-01

Edição

Seção

Resumos - Temas Filosóficos em Geral (Filosofia Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea)