VIRTUDE E PERSUASÃO NA FILOSOFIA ARISTOTÉLICA, UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ETHOS
Palavras-chave:
Aristóteles, ethos, retórica, virtude, persuasão.Resumo
O presente trabalho investiga a relação entre virtude e persuasão na filosofia aristotélica, tomando como problema central a construção discursiva do ethos do orador e sua relação com o caráter moral. Na Retórica, Aristóteles apresenta três meios de persuasão (pisteis) produzidos pelo discurso: logos, pathos e ethos. Este último ocorre quando o discurso é formulado de tal maneira que torna aquele que fala digno de confiança perante o auditório. Nesse sentido, o caráter assume uma função propriamente persuasiva, uma vez que a confiança depositada no orador pode interferir no julgamento acerca daquilo que é apresentado. Diante disso, o problema que orienta esta investigação consiste em compreender em que medida o caráter construído discursivamente precisa corresponder ao caráter moral efetivo daquele que fala. O objetivo é investigar como Aristóteles concebe a construção discursiva do ethos do orador e examinar sua relação com o caráter moral. Para isso, parte-se da concepção aristotélica de caráter apresentada na “Ética a Nicômaco”, especialmente da relação entre virtude (arete), disposição, escolha e prudência (phronesis).
Busca-se compreender em que sentido um agente pode ser considerado virtuoso e como seu caráter se constitui a partir de disposições relacionadas às ações e escolhas. Em seguida, a análise volta-se à Retórica, sobretudo à caracterização do ethos enquanto prova produzida pelo discurso. Em Retórica II, Aristóteles identifica phronesis, arete e eunoia como causas pelas quais os oradores se tornam dignos de confiança, estabelecendo uma relação entre persuasão e manifestação discursiva de determinadas qualidades daquele que fala. A hipótese sustentada é que o ethos enquanto prova retórica não pode ser simplesmente identificada com o caráter moral enquanto disposição do agente. Embora Aristóteles
mobilize conceitos pertencentes à sua filosofia prática para caracterizar a credibilidade do orador, a manifestação discursiva de prudência, virtude e benevolência não parece garantir, por si mesma, que aquele que fala possua efetivamente essas qualidades como disposições de caráter. Surge, assim, uma tensão entre ser virtuoso e apresentar-se discursivamente como alguém digno de confiança. Pretende-se, por fim, demonstrar que a análise do ethos permite compreender tanto uma aproximação quanto uma distinção entre ética e retórica no pensamento aristotélico. A construção da credibilidade do orador coloca em questão se a eficácia persuasiva do ethos depende da virtude efetiva daquele que fala ou da capacidade do discurso de torná-la manifesta perante o auditório.
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