A QUESTÃO COLONIAL E O COMPLEXO DE INFERIORIDADE DO INTELECTUAL  LATINO-AMERICANO EM ROLAND CORBISIER E JOÃO CRUZ COSTA

Autores

  • DENIZARD CUSTODIO DOS SANTOS JUNIOR Autor

Palavras-chave:

Metafilosofia, Filosofia Latino-Americana, Filosofia Brasileira, Filosofia no Brasil.

Resumo

Este trabalho tem por objetivo analisar a questão colonial e o processo de constituição  do pensamento intelectual latino-americano a partir das reflexões de João Cruz Costa (1904-1978) e Roland Corbisier (1914-2005). Investigam-se as manifestações daquilo que ambos identificam  como um “complexo de inferioridade” profundamente enraizado na formação da intelectualidade brasileira e latino-americana, o qual condicionou historicamente a postura dos pensadores latinos diante da tradição ocidental europeia. Em sua obra seminal, João Cruz Costa aponta que a mentalidade dos estudantes e dos intelectuais do país são fortemente caracterizadas por uma  admiração desmedida e acrítica por tudo o que provém do estrangeiro, atitude acompanhada por  um persistente desinteresse pela própria realidade nacional. De acordo com o autor, essa postura decorre diretamente do longo período de sujeição colonial. Contudo, apesar de empenhar-se em chamar a atenção dos jovens para a reflexão sobre o contexto local, ele próprio mantém uma perspectiva auto depreciativa acerca do estatuto da filosofia no Brasil: ao diagnosticar no país, apenas constata a presença de uma tradição diletante herdada de Portugal e recusa o título de filósofo para si e para os seus pares, preferindo a denominação mais modesta de “filosofantes” voltados ao estudo da História. Roland Corbisier, por sua vez, ratifica e aprofunda esse diagnóstico ao situar o colonialismo como uma patologia estrutural e constituinte da vida no Brasil, devido à situação colonial que nos criou. Para Corbisier, até a eclosão do Modernismo em 1922, o país não possuía propriamente uma história, mas uma “pré-história” marcada pela ausência de autoconsciência e por um sentimento de vergonha da sua suposta incultura e inferioridade. O autor enfatiza que a atividade intelectual brasileira se reduz ao gesto mórbido de ler, traduzir, comentar e citar autores europeus, importando problemas e esquemas conceituais alheios sem qualquer esforço de transformação ou adaptação. Como exemplo marcante dessa alienação, Corbisier nota que o pensador colonizado era capaz de dominar teoricamente toda a sociologia estrangeira, mas  permanecia incapaz de utilizá-la como ferramenta de leitura para interpretar a realidade social do seu próprio país. Assim, o colonialismo afetou a totalidade do ser do intelectual latino, reduzindo-o à condição de mero recipiente passivo de saberes externos. Em articulação com teorias da colonialidade do poder e do saber, conclui-se que o sentimento de submissão do intelectual do país  é fruto direto do projeto de dominação colonial, cuja ideologia impôs a tese da superioridade racial e cultural do europeu, subordinando as intersubjetividades não europeias e consolidando o eurocentrismo como eixo regulador da produção filosófica local, até o presente momento, em que finalmente novas alternativas tem dado frutos. 

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Publicado

2026-10-01