ENTRE O ENSINO E A ORDEM DO DISCURSO: FORMAÇÃO E LEGITIMAÇÃO DE UM ETHOS NA FILOSOFIA UNIVERSITÁRIA BRASILEIRA.
Palavras-chave:
Filosofia do ensino de Filosofia, Filosofia acadêmica, Ordem do discurso, Habitus acadêmico.Resumo
Propõe-se investigar a consolidação de um modo de fazer filosofia no Brasil a partir das práticas de ensino e aprendizagem constituídas no interior da universidade. Parte-se da problematização do ensino de Filosofia como uma prática não neutra: durante a formação universitária, não se transmite apenas conteúdos consagrados pela tradição, interpretações de autores ou procedimentos de leitura e argumentação, mas também determinada relação com aquilo que pode ser reconhecido como filosófico. Nesse sentido, a hipótese defendida é que a formação universitária participa da constituição de um ethos filosófico, entendido como um conjunto de disposições, práticas e critérios de legitimidade que orientam o estudante acerca de como ler, falar, escrever, pesquisar e, posteriormente, ensinar Filosofia. Mais do que formar para o domínio de determinados conteúdos, esse processo contribui para constituir uma determinada figura do sujeito filosoficamente autorizado e, consequentemente, para delimitar modos legítimos de fazer filosofia. A análise parte de uma experiência situada e articula relatos de formação, documentos curriculares e práticas de ensino, buscando compreender de que maneira esse ethos acadêmico se inscreve na constituição histórica da filosofia universitária brasileira. Não se pretende, entretanto, reduzir a filosofia realizada no Brasil a uma única tradição, mas investigar como determinados procedimentos historicamente constituídos passaram a funcionar como critérios de pertencimento, reconhecimento e autorização do discurso filosófico. Para problematizar esse processo formativo, mobilizam-se algumas ferramentas conceituais de Michel Foucault, especialmente suas reflexões acerca da ordem do discurso, que permitem interrogar os mecanismos pelos quais determinadas posições de fala e formas de relação com a Filosofia adquirem legitimidade. Em diálogo com Pierre Bourdieu, busca-se compreender como essas práticas podem ser incorporadas como disposições duráveis, constituindo um habitus acadêmico. Já as reflexões de Paulo Arantes, Oswaldo Porchat, Lídia Maria Rodrigo, Mário Porta, entre outros, permitem situar o problema no contexto da filosofia universitária brasileira, particularmente no que diz respeito à centralidade assumida pela leitura, pelo comentário e pela reconstrução da tradição. O texto filosófico, nesse contexto, não constitui em si mesmo o problema; a questão reside no modo como determinadas formas de relação com ele passam a funcionar como critérios de reconhecimento e legitimação da própria atividade filosófica. Sustenta-se, assim, que o ensino superior de Filosofia não constitui apenas um espaço de transmissão da filosofia produzida, mas participa da constituição das próprias condições a partir das quais algo pode ser reconhecido como filosofia (discurso como criação). Ao ensinar autores, conteúdos e procedimentos, a universidade transmite também modos de se relacionar com o discurso filosófico, contribuindo para a formação de sujeitos que incorporam, reproduzem e, eventualmente, tensionam seus critérios de legitimidade. Desse modo, propõe-se interrogar a filosofia realizada no Brasil não apenas a partir das obras e ideias aqui produzidas, mas também das práticas formativas que historicamente contribuíram para constituir determinadas concepções de filosofia, de filosofar e do próprio filósofo.
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