ARMAR O OLHAR: RESISTÊNCIA E PROMESSA DE FUTURO NO ENSINO DE ESTÉTICA DE GILDA DE MELLO E SOUZA.

Autores

  • RAFAEL LOPES DO VALLE Autor

Palavras-chave:

História da Filosofia Brasileira; Estética; ensaio; modernidade.

Resumo

Em 1972, Gilda de Mello e Souza ministra a aula inaugural dos cursos do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, publicada sob o título “A Estética rica e a Estética pobre dos professores franceses”. Inaugural e, ao mesmo tempo, terminal, visto que antecede a sua aposentadoria. Nesse clima de despedida, a ensaísta retoma Jean Maugüé, Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide, seus professores franceses quando ingressou no curso de filosofia, e reflete sobre alguns textos que produziram durante a docência no “departamento francês de ultramar”. Apoiada em tal material, distingue duas orientações teóricas: de um lado, a “estética rica”, centrada sobre a pintura e alicerçada em uma hierarquia das artes e um ideal absoluto de beleza; de outro, a “estética  pobre”, que opera uma ruptura com os grandes períodos históricos e as grandes manifestações artísticas, empenhando-se em “desentranhar” o fenômeno estético do cotidiano, dos “fatos insignificantes” e “sem foros de grandeza” que constituem a matéria viva de nossa existência. O desinteresse pela obra-prima reconfigura o olhar para flagrar o valor artístico ali onde ele parecia ausente. A partir de uma análise “fragmentária”, a ensaísta buscou reconstruir um “período  arqueológico” da Faculdade de Filosofia, para, com isso, apresentar a uma nova geração a influência dos três professores franceses na formação de sua própria geração. De tabela, esboçou o impasse em que se encontra a estética. Nessa medida, buscaremos defender que a exposição de uma estética comprometida em “desentranhar” o fenômeno estético dos “fatos insignificantes” permitiu a Gilda de Mello e Souza converter o passeio retrospectivo de sua aula em uma intervenção no presente. Ensinar a “estética pobre” era armar o olhar de seus alunos. Ao despedir-se da docência sob a penumbra sufocante dos anos de chumbo, a ensaísta pressentia a urgência de uma estética que rasurasse os valores eternos para negociar com as contingências da modernidade. Essa perspectiva esclarece o peso conceitual conferido aos adjetivos “rica” e “pobre”. O lado “pobre” da estética esconde dos poderes sistêmicos e autoritários sua potência de revelar margens, frestas, sobrevivências e a própria qualidade dos defeitos. Nessas brechas, a ensaísta identificava possibilidades e a promessa de futuro. Assim, recusou a tentação de prescrever soluções fáceis ou diagnósticos definitivos, optando pelo compromisso de “saber ver”.

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Publicado

2026-10-01