A DELIBERAÇÃO EM ARISTÓTELES
Keywords:
voluntário, deliberação, prudência, AristótelesAbstract
A deliberação aparece na Ética a Nicômaco como tradução de euboulia. Nesta apresentação, trataremos da deliberação segundo o Livro III da Ética a Nicômaco (1111b4– 1113b2). A deliberação não é apetite, impulso, querer ou opinião. O apetite e o impulso são comuns aos animais irracionais, mas a deliberação, não. O apetite diz respeito ao agradável e ao penoso; a deliberação, não. O impulso, como indica o significado da palavra, não pode ser deliberação, pois esta exige tempo. Tampouco é opinião, pois a opinião pode referir-se a qualquer coisa, inclusive às coisas eternas e impossíveis. A opinião é dita verdadeira ou falsa, ao passo que a deliberação é dita boa ou má. Também não é querer (desejo), pois este pode ter por objeto coisas impossíveis. Além disso, o querer diz respeito ao fim, enquanto a deliberação diz respeito aos meios para atingir esse fim. Embora o querer possa referir-se a qualquer tipo de situação, a deliberação diz respeito apenas às coisas que estão em nosso poder realizar. Podemos, por exemplo, desejar voar como um pássaro, mas isso não está em nosso poder. Podemos também querer que um atleta ou um ator vença uma competição, mas isso igualmente não depende de nós. Não deliberamos sobre os objetos eternos, como os corpos celestes, nem sobre questões como a incomensurabilidade entre a diagonal e o lado do quadrado. Tampouco deliberamos sobre aquilo que ocorre sempre da mesma maneira, seja por necessidade, por natureza ou por qualquer outra causa, como as órbitas dos astros ou o seu nascer. Também não deliberamos sobre fenômenos que ora acontecem de um modo, ora de outro, como as secas e as chuvas, nem sobre o que resulta do puro acaso, como a descoberta de um tesouro. Finalmente, não deliberamos sobre todos os assuntos humanos, pois nenhum lacedemônio delibera sobre a melhor forma de governo dos citas. A deliberação é uma atividade da razão prática e constitui parte central da prudência. Por isso, quando Aristóteles estuda a ação humana, dedica-lhe uma parte significativa de sua análise. A deliberação diz respeito às ações voluntárias e exige tempo. Uma vez que o fim da ação é estabelecido pelo desejo, a deliberação consiste em ponderar os prós e os contras para descobrir os meios mais adequados para realizá-lo. Para que o fim seja alcançado da melhor maneira possível, a deliberação deve levar em consideração as circunstâncias concretas em que a ação ocorre. Se devemos emprestar dinheiro a um amigo necessitado, por exemplo, é preciso avaliar se ele fará bom uso desse dinheiro ou se o gastará em jogos. A deliberação envolve inúmeras variáveis e é realizada de maneira excelente pelo homem prudente (phronimos).
Downloads
Published
Issue
Section
License
Copyright (c) 2026 ELAINE CARVALHO FERNANDES (Autor)

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.