FILOSOFIA DO ROMANCE, POESIA DA VIDA: O PROJETO DA POÉTICA DE WILHELM DILTHEY
Palavras-chave:
Wilhelm Dilthey; Ciências do Espírito; Erlebnis; Estética; RomanceResumo
Antes da elaboração da obra A teoria do romance (1915-1916), de György Lukács, o gênero romanesco já figurava no centro dos debates estéticos da corrente histórica, crítica e filosófica das ciências do espírito (Geisteswissenschaften), tendo como referência os parâmetros legados pela estética pós-kantiana. Em 1882, o escritor alemão Friedrich Spielhagen apresentou, em seu ensaio Der Ich-Roman, uma reflexão sobre os desafios propriamente modernos referentes ao romance e seu caráter individual aparentemente incontornável. Nesse contexto, defende Spielhagen, diante da decadência de uma conexão comunitária e transcendente de vida, o poeta se vê condicionado ao material contido em suas próprias vivências. Em 1883, por meio da Introdução às ciências do espírito, de Wilhelm Dilthey, a vivência passa a ocupar o lugar do sujeito transcendental kantiano, erguendo-se como ponto de partida epistemológico das ciências do espírito. É nesse contexto teórico e estético que se formam os esboços que dão origem aos manuscritos reunidos na obra Poética (1887) de Dilthey, que responde à nova situação da poesia frente ao avanço do mundo burguês e à crescente diversidade de formas artísticas, a qual torna os parâmetros estéticos cada vez mais amplos. A forma do romance é — como já antecipado pelos debates estéticos do século XVIII —, ao mesmo tempo, expressão dessa anarquia das formas e o veículo primordial da posição da subjetividade no mundo moderno. Na concepção de Dilthey, em virtude de sua estrutura fundamentalmente vivencial, o romance se ergue como a forma poética que melhor manifesta tanto a expansão da poesia prosaica quanto os dilemas expostos pela filosofia da vida. Seu projeto de uma poética, iniciado no final do século XIX e desenvolvido até suas últimas atualizações, por meio de manuscritos datados entre 1907 e 1908, busca lidar com o terreno cada vez mais relativo da arte literária. Isso ocorre na medida em que se apresenta a necessidade premente de elaborar uma concepção de poesia, de suas leis e práticas, sob uma perspectiva histórico-social e psicológica, capaz de abarcar, de algum modo, tanto a validade universal da estética quanto a multiplicidade a que essa expressão humana está sujeita. Nessa direção, o presente trabalho percorre os esboços do projeto diltheyano de uma Poética, na tentativa de ilustrar suas definições acerca da relação entre os desafios da forma poética na modernidade contemporânea e a caracterização do gênero romanesco como a medula espinhal dessa tarefa.
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