O TEATRO ÉPICO COMO CONSEQUÊNCIA DA CRISE DA SUBJETIVIDADE
Palavras-chave:
gêneros literários, teatro épico, Peter Szondi, Thornton WilderResumo
Ao nos depararmos com uma obra literária ou uma peça teatral, a maioria das pessoas não atenta à forma, e sim ao conteúdo. Porém, ao analisarmos a estrutura da obra, podemos perceber diferentes construções. Tradicionalmente, o palco numa peça dramática é o lugar onde a ação se desenvolve, autônoma, sem interferência externa. Contudo, características épicas introduzidas no gênero dramático deram origem a um novo termo: o teatro épico. Os gêneros literários se dividem em lírico, épico e dramático. A lírica caracteriza-se pela exposição de sentimentos e estados da alma de um eu lírico. No gênero épico existe um narrador de postura objetiva, que descreve fatos, paisagens e personagens, havendo clara separação entre narrador e mundo narrado; o tempo verbal predominante é o pretérito. Já o gênero dramático caracteriza-se pela ausência do narrador: os acontecimentos têm caráter autônomo, com encadeamento de ações sempre progressivas, sem remeter ao passado. O tempo é linear e a ação ocorre no presente, movendo-se através dos diálogos entre os personagens. Segundo Peter Szondi, o gênero dramático assume no Renascimento uma forma sui generis, em que o homem se volta para si e para a construção das relações intersubjetivas. O drama passa a ser entendido como expressão da liberdade de atuação e da capacidade de decidir e agir do novo homem, sendo o diálogo o principal veículo na construção das relações entre os personagens, capaz de criar vínculos ou provocar atritos. Na contemporaneidade, sobretudo no final do século XIX, a estrutura do drama moderno começa a se desintegrar, e os quatro pilares desse gênero — ausência do narrador, tempo linear e presente, causalidade e autonomia dos personagens — se enfraquecem. Em Teoria do drama moderno, Szondi apresenta obras em que ocorre um inexorável avanço de caracteres épicos sobre o gênero dramático. Um desses exemplos é Nossa Cidade, de Thornton Wilder (1938). A peça apresenta mais elementos épicos do que dramáticos, pois o autor introduz um narrador — o diretor de cena — que é o primeiro a aparecer no palco. Ele organiza a cena, fazendo com que a plateia entenda que certas cadeiras e mesas representam locais da cidade; descreve-a sob o ponto de vista geográfico, cultural, político e religioso; apresenta os personagens, interagindo com eles e, em determinado momento, com a própria plateia, que faz perguntas sobre a cidade. Quanto ao tempo, o diretor de cena retrocede ao passado para mostrar o matrimônio de um casal entre as famílias da cidade. No terceiro ato, nove anos depois, a esposa morre ao dar à luz seu segundo filho. Emily é sepultada e vai para o mundo dos mortos. Mais tarde, deseja retornar à vida e, apesar de desencorajada pelos companheiros de tumba — que querem poupá-la de uma decepção —, reafirma sua vontade e pede ao diretor de cena que a leve de volta a um dia feliz: sua festa de 12 anos. Ao estancar-se sua vida, o personagem de um drama torna-se objeto de observação de si mesmo, como um narrador, e não mais como agente.
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