A INTERIORIZAÇÃO DA METRÓPOLE E O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL: UMA LEITURA DO ENSAIO DE MARIA ODILA LEITE DA SILVA DIAS
Palavras-chave:
Independência do Brasil, interiorização da metrópole, continuidade.Resumo
“A interiorização da metrópole”, ensaio escrito por Maria Odila Leite da Silva Dias, analisa a Independência do Brasil sob uma perspectiva historiográfica que prioriza a continuidade institucional em vez de uma ruptura revolucionária. A autora defende que o processo de emancipação política foi, na verdade, uma interiorização da metrópole, onde a elite portuguesa e os setores dominantes locais se enraizaram no Centro-Sul para preservar a ordem monárquica e escravocrata, animados por uma vontade de se constituir e de sobreviver como nação europeia nos trópicos. A sociedade que se formara no correr de três séculos de colonização não tinha alternativa ao findar do século XVIII senão transformar-se em metrópole, a fim de manter a continuidade de sua estrutura política, administrativa, econômica e social. Foi o que os acontecimentos europeus (invasões napoleônicas, por exemplo), a pressão inglesa e a vinda da Corte tornaram possível. Essa estratégia serviu para conter tensões sociais e raciais e evitou que o Brasil se fragmentasse ou sofresse insurreições populares como as de outras colônias americanas. Assim, a vinda da Corte em 1808 é vista como o verdadeiro marco da fundação do Estado, a consolidar um projeto de nação elitista e centralizado. O sentimento nacional teria surgido, portanto, não de uma luta contra Portugal, mas da necessidade de manter a estabilidade política e o predomínio das classes proprietárias nos trópicos. O processo de emancipação política do Brasil não deve ser compreendido como uma ruptura revolucionária ou um movimento nacionalista clássico, mas sim como uma transição marcada pela continuidade das estruturas coloniais. Os políticos da época eram bem conscientes da insegurança provocada por tensões internas, sociais, raciais, da fragmentação, dos regionalismos. A consciência propriamente “nacional” viria pela integração das diversas províncias e seria uma imposição da nova Corte no Rio de Janeiro. A vinda da Corte com o enraizamento do Estado português no Centro-Sul daria início à transformação da colônia em metrópole interiorizada, distante da configuração de Estado moderno alicerçado no constitucionalismo liberal. A ilustração brasileira, portanto, não pode ser compreendida como luta anticolonial ou luta da colônia contra a metrópole. A chave para entender esse período e a formação da nacionalidade brasileira é o conceito de interiorização da metrópole: com a vinda da Corte em 1808, o aparato estatal português criou raízes no Centro-Sul e transformou o Rio de Janeiro no novo centro de decisão de um Império que buscou preservar a velha ordem absolutista e a estrutura escravocrata, garantida pela centralização política e pela força militar.
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