ÁLVARO VIEIRA PINTO E A FILOSOFIA BRASILEIRA NO ISEB: POR QUE OS RICOS NÃO FAZEM GREVE?

Autores/as

  • ANGÉLICA LOVATTO Autor/a

Palabras clave:

Álvaro Vieira Pinto; ISEB; filosofia brasileira; greves; nacionalismo.

Resumen

Álvaro Vieira Pinto (1909-1987) foi o filósofo brasileiro que dirigiu o ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros no período de 1961-64, mas já pertencia aos seus quadros desde 1955 como responsável do Departamento de Filosofia. No mesmo período em que foi o Diretor do Instituto, Vieira Pinto coordenou a Coleção Cadernos do Povo Brasileiro, que teve um enorme sucesso editorial, vendendo mais de um milhão de exemplares. Foi censurada e encerrada pelo golpe militar de 1964. Nesta coleção foram publicados 28 volumes e seu principal objetivo era o de discutir os processos que poderiam levar não só a uma teoria da revolução brasileira, como seus caminhos e estratégias. Coube ao filósofo brasileiro ser o responsável pelo volume 3, Por que os ricos não fazem greve?, precedido pelo volume 1, que discutiu O que são as Ligas Camponesas?, de autoria de Francisco Julião, e do volume 2, escrito por Nelson Werneck Sodré, Quem é o povo no Brasil?. O Caderno Por que os ricos não fazem greve? foi o exemplar mais vendido de toda a coleção, chegando a cinco edições que somaram 100 mil exemplares. O texto fazia uma instigante exposição sobre uma questão básica e dava a resposta categórica: os ricos não fazem greve porque os ricos não trabalham! Eles usufruem do trabalho de outros, que só têm sua força de trabalho para vender. Avalio que essa simplicidade na forma de exposição escrita, explicando algo teoricamente complexo (a lógica do trabalho e do ser social) foi a chave para o enorme sucesso dessa empreitada filosófica de Vieira Pinto. A hipótese que aqui defendo é a de que o sucesso não só editorial e de venda, mas de divulgação do pensamento brasileiro e da discussão sobre os trabalhadores brasileiros, por meio dessa coleção (que, repito, vendeu no total cerca de um milhão de exemplares), foi impulsionada pelos objetivos de uma proposta pedagógica: escrever com relativa simplicidade, para ser lido por quaisquer adultos alfabetizados, sobre temas complexos e de mobilização de classe e popular. A coleção foi divulgada pelo projeto “UNE Volante”, mantido pelos Centros Populares de Cultura. Portanto, o sugestivo e provocador título Por que os ricos não fazem greve?, do Caderno número 3, de Álvaro Vieira Pinto, era lido como uma faísca que incendiava o público leitor, no campo e na cidade. A leitura carregava fortes elementos de compreensão do fenômeno das greves, como e por que efetivá-las, demonstrando a alavanca para as lutas de classes do período, desvendando os caminhos da revolução brasileira. A Coleção coordenada pelo destacado filósofo brasileiro nasceu e se desenvolveu num fértil momento histórico do pré-1964: a constituição das Ligas Camponesas, as greves operárias, a formação da CGT – Comando Geral dos Trabalhadores, a Campanha “O petróleo é nosso”, o surgimento cultural do cinema novo, do Teatro Arena etc. Esta comunicação de pesquisa visa valorizar a filosofia brasileira, resgatando uma parte da obra de Álvaro Vieira Pinto, que ainda é um autor menos conhecido do que deveria em nosso país. 

Publicado

2026-10-01