ENTRE LITERATURA E FILOSOFIA: O NATURALISMO NAS OBRAS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA COMO UMA FORMA DE PENSAR O BRASIL

Autores

  • YARA ELISA DE CAMPOS Autor

Palavras-chave:

Júlia Lopes de Almeida, Filosofia brasileira, Naturalismo no Brasil.

Resumo

Este trabalho parte do questionamento sobre a existência ou não de uma filosofia brasileira. Paulo Margutti, pesquisador dedicado à história da filosofia no Brasil, afirma que a filosofia produzida no país sofreu grande influência dos modelos europeus, em consequência do colonialismo, caracterizando seus representantes como filósofos estrangeirados. Em contraponto a isso, este trabalho recorre à literatura como possibilidade de construção de um pensamento atento às especificidades históricas e sociais do país. Segundo Antonio Candido, o naturalismo brasileiro, embora profundamente influenciado pelos modelos francês e português, desenvolveu características próprias ao incorporar elementos relacionados às particularidades sociais, culturais e raciais do Brasil. Desse modo, a estética naturalista brasileira é marcada pela representação de um contexto tropical e pelas contradições próprias da realidade social brasileira, dando voz e direito às camadas marginalizadas e excluídas da sociedade. Nesse cenário, destaca-se Júlia Lopes de Almeida, escritora carioca atuante na virada do século XIX para o século XX e participante dos movimentos realista e naturalista, cuja produção abrange romances, crônicas e contos. Em romances como A família Medeiros (1893) a autora expõe os males da escravidão no país, apresentando os escravizados submetidos às estruturas de exploração vigentes no Brasil oitocentista. Em A falência (1901), por sua vez, a trajetória do imigrante português Francisco Teodoro, que chega à cidade do Rio de Janeiro e enriquece por meio de seu armazém de café, permite observar as relações de exploração econômica e as desigualdades sociais presentes no período. Então, objetiva-se analisar os aspectos naturalistas nas obras de Júlia Lopes de Almeida, observando que, através de uma estética literária, sua produção não apenas registra as tensões de uma sociedade em processo de transformação, mas também contribui para a construção de uma memória acerca da escravidão, da imigração em massa de portugueses e de seus efeitos sobre a sociedade brasileira, com destaque para as marcas do sistema escravista e sua permanência na estrutura social mesmo após a Abolição. Se a filosofia brasileira foi historicamente influenciada por modelos europeus, a literatura pode ser um espaço privilegiado para pensar a experiência histórica e social do país. Assim, a literatura não apenas representa o Brasil, mas também produz uma reflexão sobre seus problemas e especificidades, podendo contribuir para a construção de um pensamento filosófico brasileiro. 

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Publicado

2026-10-02