SOM COMO RESISTÊNCIA: A FILOSOFIA NA MÚSICA DE CHIQUINHA GONZAGA
Palavras-chave:
Som, Resistência, MúsicaResumo
Este trabalho investiga a obra de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) a partir da filosofia da música, com foco nas articulações entre estética, gênero e poder. Parte-se da hipótese de que suas composições podem ser compreendidas como práticas críticas que não apenas expressam uma experiência histórica, mas tensionam normas sociais e reconfiguram categorias como identidade, autoria e legitimidade no contexto brasileiro do século XIX.
A análise se apoia, de um lado, na concepção adorniana de arte como crítica imanente, entendendo a música como forma de intervenção nas estruturas sociais, capaz de evidenciar contradições e fissuras nas formas estabelecidas. De outro, mobiliza a teoria da performatividade de gênero de Judith Butler para interpretar a produção musical de Chiquinha como prática reiterativa que, ao mesmo tempo em que se inscreve em convenções, opera deslocamentos que desestabilizam normas e expõem o caráter histórico e construído das identidades de gênero.
O trabalho examina também o trânsito entre música erudita e popular em sua obra, compreendendo essa tensão como um campo de disputa estética e política. Nesse sentido, a circulação entre gêneros como modinha, lundu e maxixe é analisada não apenas como dado estilístico, mas como prática que desafia hierarquias culturais e participa da constituição de uma linguagem musical brasileira. Em diálogo com a noção de “mundos da arte”, de Howard Becker, investigam-se ainda as condições sociais de produção, circulação e legitimidade de sua obra, com atenção à sua atuação na defesa dos direitos autorais como forma de afirmação intelectual feminina em um campo historicamente marcado por exclusões de gênero.
Ao propor uma escuta filosófica da música, o trabalho busca deslocar a centralidade da linguagem verbal como único meio de elaboração conceitual, reconhecendo na prática musical uma forma legítima de pensamento. Assim, a obra de Chiquinha Gonzaga é compreendida não apenas como expressão artística, mas como espaço de elaboração estética e política das questões de gênero, evidenciando o potencial da música como forma crítica de intervenção no social.
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