FILOSOFIA DO INSTANTE: CLARICE LISPECTOR SOB O OLHAR DE GILDA DE MELLO E SOUZA
Palavras-chave:
Clarice Lispector; Gilda de Mello e Souza; Estética; Literatura Brasileira.Resumo
O seguinte trabalho se propõe a analisar o romance de Clarice Lispector (1920-1977) intitulado A maçã no escuro, sob a perspectiva de Gilda de Mello e Souza (1919-2005), primeira professora de estética do Departamento de Filosofia da USP. O enredo do romance em questão tem início com a fuga de Martim, logo depois de ter sido acusado de cometer o crime de assassinar a sua esposa. A seguir, o leitor é convidado a acompanhar o fugitivo numa noite muito escura. O caminho da fuga desemboca na fazenda de Vitória, uma mulher solteira que começa a envelhecer. Na fazenda, em que vive também Ermelinda, prima de Vitória, ele é contratado para desempenhar serviços gerais. A presença de Martim acaba por mexer na vida pessoal de ambas as mulheres, até que é descoberto por dois investigadores que o levam à prisão. Em seu artigo “O vertiginoso relance”, Gilda de Mello e Souza afirma que o interesse da romancista se orienta na direção de buscar “apreender o instante exemplar, aquela ínfima parcela de duração capaz de iluminar com o seu sentido revelador toda uma sequência de atos, sem subterfúgios, “num vertiginoso relance”. (p. 80). De acordo com a esteta, o fluxo temporal na narrativa intimista de A maçã no escuro se manifesta como “soma de instantes” e a preocupação da autora concentra-se em fixar o “urgente instante de agora” (p. 80). Desse modo, Lispector exprime a oscilação e a tensão entre uma aspiração impossível: apreender o instante, uma vez que o instante é inacessível. Aspiração manifesta de maneira quase que obsessiva, constantemente procurando perseguir uma realidade incapturável, “O que se traduz no próprio estilo, na constância em que o termo ‘instante’ volta de maneira obsessiva à sua pena e, sobretudo, com que se serve, exaustivamente, de todos os advérbios e locuções temporais que, não raro, enfeiam pela repetição contínua, a sua bela prosa: ‘então’, ‘agora’, […] ‘nessa fração de segundo” (p. 80). Clarice Lispector concebe um tempo fracionado, “feito de pequenos segmentos de duração que, recompondo-se incessantemente, só podem ser divisados de muito perto e num lampejo.” (p. 98). O método adotado é comparativo, de modo que seja possível propor uma abordagem filosófica da literatura de Clarice Lispector, sob a ótica da obra ensaística de Gilda de Mello e Souza, considerando-se a aplicação do referencial conceitual por ela proposto. Na dinâmica não linear de A maçã no escuro, os esforços da autora se direcionam na tentativa de capturar e apreender pela linguagem o próprio tempo, através de lampejos do real. Gilda de Mello e Souza aborda a literatura feminina enquanto atravessada pela vocação da minúcia, pois a mulher, na referida obra de Clarice Lispector, encontra-se confinada ao espaço doméstico, sem participar dos grandes eventos históricos e políticos, razão pela qual desenvolve refinada visão de míope, ampliando em grande escala a materialidade que a cerca e que a constitui.
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