AÇÕES ECOLOGICAMENTE RESPONSÁVEIS FRENTE AO DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO: UMA ANÁLISE FILOSÓFICO-INTERDISCIPLINAR
Palavras-chave:
Cosmotécnica, Perspectivas Teóricas da Complexidade, Filosofia da tecnologiaResumo
O objetivo geral deste trabalho é apresentar uma discussão filosófico-interdisciplinar sobre a compatibilização do desenvolvimento tecnológico e a preservação da biodiversidade. A seguinte questão guia nossa investigação: o desenvolvimento tecnológico contemporâneo pode influenciar ações com uma finalidade ecologicamente responsável? Argumentamos, a partir de perspectivas teóricas sobre a complexidade (Mitchell, 2009; Holland, 2014; Morin, 1995) e da hipótese de cosmotécnica de Yuk Hui (2020), em Tecnodiversidade, que o desenvolvimento tecnológico contemporâneo pode influenciar nas ações humanas. As perspectivas teóricas da complexidade podem ser distinguidas em: Teoria Geral dos Sistemas e o Pensamento Complexo, elaboradas, respectivamente, por Melanie Mitchell (2009) com seu livro intitulado Complexity: A Guided Tour e John Holland (2014) em Complexity: A Very Short Introduction; e Edgar Morin (1995) com Terra-pátria. O desenvolvimento tecnológico na ótica dessas perspectivas teóricas sobre a complexidade, focalizam o caráter sistêmico de inovações tecnológicas, expresso a partir da emergência de interações auto- organizadas entre agentes. O usuário, nessa perspectiva, possui um caráter de duplo aspecto. Ao mesmo tempo em que o agente contribui ativamente para a constituição de um sistema técnico, a sustentação do sistema exige e exibe padrões comportamentais específicos de seus usuários, condicionando suas ações. Uma ilustração dessa dinâmica sistêmica é a utilização da inteligência artificial em estratégias militares. Usuários e programadores integram um programa de inteligência artificial com dados de entrada que podem ser atualizados pela utilização do usuário através de mecanismos de feedback (Mitchell, 2009; Holland 2014). Esses programas de inteligência artificial, ao serem utilizados em cenários bélicos, podem direcionar estratégias militares, ao sugerir alvos, emitir coordenadas e priorizar objetivos em tempo real. Em suma, o caráter de duplo aspecto explicita que sistemas técnicos são estruturados por agentes e podem influenciar as ações destes. Consideramos que a hipótese de Yuk Hui sobre a cosmotécnica, segundo a qual a técnica está indissociavelmente relacionada à cosmologia e moral, converge com a hipótese do caráter de duplo aspecto. Para Hui (2020) a técnica atua recursivamente, emergindo e conduzindo nossos hábitos, sendo um exercício cosmológico de localidade. Argumentamos, à luz dessa fundamentação teórica, que sistemas tecnológicos emergentes de interações auto organizadas locais podem viabilizar condutas responsáveis ecologicamente. Consideramos que as perspectivas teóricas sobre a complexidade e a hipótese de cosmotécnica oferecem fundamentações teóricas para uma análise filosófico-interdisciplinar a respeito de uma ação ecologicamente responsável compatível com um desenvolvimento tecnológico pluralmente técnico.
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