DA FOTOGRAFIA ÀS IMAGENS SINTÉTICAS: A ATUALIDADE DA FILOSOFIA DA FOTOGRAFIA DE VILÉM FLUSSER DIANTE DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Palavras-chave:
Fotografia, Inteligência Artificial, Filosofia da Fotografia, Vilém Flusser.Resumo
O desenvolvimento recente de sistemas de Inteligência Artificial (IA) capazes de produzir imagens sintéticas hiper-realistas reacende discussões sobre o que são essas imagens, seus impactos nos indivíduos e a relação entre sujeitos e aparelhos. Este trabalho propõe analisar a atualidade da filosofia da fotografia proposta pelo filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser para compreender as transformações da linguagem imagética perante as IAs. A pesquisa fundamenta-se, principalmente, nas obras Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia (1985), Ensaio sobre a Fotografia: para uma filosofia da técnica (1998) e O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação (2007). O problema que orienta a investigação consiste em examinar o que são as imagens produzidas por IA, seus impactos nos indivíduos, e se exigem revisão da filosofia flusseriana ou se podem ser compreendidas como um desdobramento dos conceitos propostos pelo filósofo. Parte-se da hipótese de que a IA não rompe com a estrutura conceitual proposta por Flusser, mas radicaliza processos já identificados em sua obra, deslocando a produção imagética da captação óptica do mundo para sua síntese algorítmica nos sistemas computadorizados, sem eliminar a centralidade dos aparelhos como mediadores da experiência humana, o que denomina como "caixa-preta". Esses aparelhos operam na fronteira entre a técnica e o homem, produzindo imagens cujo hiper-realismo simula autenticidade e dissimula suas próprias mediações, o que compromete a capacidade dos indivíduos de distinguir o real do sintético. O objetivo da pesquisa foi analisar em que medida os conceitos propostos permanecem válidos para interpretar as imagens sintéticas produzidas por IA, bem como discutir como tais imagens reconfiguram a produção de sentido, a percepção da realidade e a relação dos sujeitos com as imagens contemporâneas na perspectiva da obra do Flusser. Metodologicamente, a investigação possui caráter qualitativo e bibliográfico, combinando análise de conteúdo com leitura analítica e interpretativa das obras selecionadas. Os resultados indicam que a crítica flusseriana à opacidade da "caixa-preta", à crescente autonomia dos aparelhos em suas criações e ao consumo irrefletido das imagens permanece latente para compreender o atual cenário da cultura visual. A análise indica que a IA não rompe com a filosofia flusseriana da imagem técnica, mas amplia o alcance dos processos já identificados pelo autor. O aparelho deixa de ser apenas óptico e passa a operar por modelos algorítmicos capazes de sintetizar imagens sem referente real, intensificando a autonomia dos sistemas técnicos e aprofundando a mediação entre os sujeitos e o mundo. Embora Flusser tenha elaborado suas reflexões em um contexto anterior à IA, seus conceitos oferecem instrumentos filosóficos consistentes para interpretar a ampliação da mediação algorítmica na produção de imagens. Conclui-se, assim, que as imagens sintéticas não representam uma ruptura com a filosofia flusseriana, mas constituem um novo estágio das imagens, no qual a autonomia dos aparelhos e o hiper-realismo dos processos de produção visual intensificam desafios epistemológicos, culturais e éticos já apontados pelo filósofo.
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