DA HISTORIA NATURALIS BRASILIAE (1648) A KRENAK: A FILOSOFIA NATURALISTA E UMA ECOLOGIA DO FRUTO-RECIPIENTE DA CABACEIRA
Palavras-chave:
Historia Naturalis Brasiliae; filosofia natural moderna; cabaças; natureza e artifício; crítica contracolonial.Resumo
Esta comunicação examina, no interior da filosofia natural moderna, dois verbetes da Historia Naturalis Brasiliae (1648), de Georg Marcgrave e Willem Piso: o da Cucurbita lagenæ, hoje identificada como Lagenaria siceraria, e o da árvore Cuiete, hoje Crescentia cujete, cujo fruto lenhoso é descrito não apenas em sua morfologia, mas na sequência técnica pela qual os povos indígenas o convertiam em prato, copo e vaso, fervendo-o, cortando-o com corda grossa, escavando-o e polindo-o internamente. O problema que se pretende formular é o de que, ao inscrever uma operação técnica no interior de um verbete botânico, o inventário naturalista converte o trabalho indígena em propriedade da planta e desloca, sem tematizar, a partição aristotélica entre aquilo que tem em si o princípio do movimento e aquilo que só existe por techné. A cabaça é, nesse sentido, um caso-limite: ela não é exatamente um vivente descrito, nem exatamente um artefato, e é essa indeterminação que permite à obra registrar a cultura material sem reconhecer o sujeito que a produz. A hipótese central sustenta o compêndio naturalista conserva integralmente a forma do inquérito descritivo herdada da Historia Animalium, mas já não conserva a ontologia do animado exposta no De Anima, de modo que o critério último de relevância de cada verbete passa a ser a utilidade, isto é, uma finalidade externa ao vivente descrito. No caso da cabaça essa substituição da finalidade interna pela finalidade externa é literal, pois o fruto só interessa enquanto recipiente. Sustenta-se ainda que é nesse mesmo gesto que se origina, no Brasil, o registro arqueobotânico do fruto-recipiente: a exsicata de Crescentia cujete, coletada por Marcgrave, e conservada na Dinamarca. constitui, simultaneamente, documento botânico e vestígio de cultura material, ao passo que o nome tupi cuiete sobrevive na nomenclatura lineana como som e desaparece como memória, operação que Nego Bispo (2023) descreve como “guerra das denominações”, em sua obra icônica A terra dá, a terra quer. Os objetivos aqui são três: reconstituir filologicamente os dois verbetes a partir do original latino, analisando as descrições de morfologia e de manufatura; determinar o estatuto ontológico atribuído ao vegetal quando ele é descrito por sua destinação utensiliar, situando a obra entre a enteléquia aristotélica e a redução do vivente a matéria extensa; e propor uma leitura em que a cabaça deixe de figurar como recipiente disponível, ao passo da filosofia brasileiro anticolonial. Conclui-se, provisoriamente, que a história da filosofia moderna dispõe na botânica da cabaçeira como de um objeto raro, aquele em que uma tese ontológica sobre o vivo produz consequências materiais verificáveis, e que o exame desse objeto permite reformular, em chave filosófica, a pergunta o que se conta como natureza e por quem decidiu-se, culminando nos contrapontos de Krenak.
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