O CORPO E A CARNE NA DEMOCRACIA MODERNA: CLAUDE LEFORT E A FENOMENOLOGIA CRÍTICA
Palavras-chave:
Claude Lefort, Fenomenologia crítica, Corpo indeterminado, Democracia, Carne.Resumo
Esta apresentação tem como objetivo investigar como Claude Lefort, através do seu conceito de corpo político indeterminado da democracia moderna, insere-se na tradição da fenomenologia crítica. Entendemos essa última, na esteira de Lisa Guenther em Critical Phenomenology (2020) e Silvana Ramos em Merleau-Ponty e a atualidade da fenomenologia (2023), como uma crítica teórica e política da fenomenologia clássica, com Edmund Husserl sendo seu principal nome nesse estudo e Maurice Merleau-Ponty — e sua encarnação da experiência — o ponto de partida para seu questionamento. Ela abre a possibilidade de situar a vivência concreta do mundo em um corpo particularizado em diferentes raças, gêneros e sexualidades — não em um ego transcendental abstrato (Husserl), nem em um corpo ainda sem marcadores sociais (Merleau-Ponty) —, levando em conta os quasi-transcendentais, isto é, as estruturas que moldam a priori nossa forma de existir no mundo mas que variam socio e historicamente, como o patriarcado, a supremacia branca e a heteronormatividade, que não são levados em conta pela fenomenologia clássica por não serem universais, mesmo permeando nossa atitude natural (e se o objetivo de tais filósofos é ir além dela, isso não pode ser negligenciado). Assim, a fenomenologia crítica possui um caráter tanto de crítica imanente à clássica quanto uma preocupação política de, indo além dela, construir outras formas de Ser-no-mundo que apontem para a liberdade, e não reproduzam a opressão contemporânea. Dessa forma, Lefort em A invenção democrática (1981), apesar de escrever antes da recente formulação de tal fenomenologia, realiza um movimento próximo do que é defendido pelas duas ao utilizar do arsenal teórico da fenomenologia clássica, expandindo-o para pensar a modernidade, nesse caso, a imagem do corpo político da experiência democrática, motivado politicamente pela ameaça do totalitarismo de restabelecer fantasticamente uma unidade, homogeneidade e integridade da sociedade na imagem do povo-Uno. Segundo Ramos, em vez da apropriação, mais habitual para os fenomenólogos críticos, do conceito de corpo próprio de Merleau-Ponty, Lefort opta pela indeterminação radical da noção de carne de sua ontologia tardia, o que guarda um maior potencial para repensar as lutas por direitos das minorias sociais na contemporaneidade ao escapar da fixidez e fechamento do identitarismo e sustentar o caráter da não-identidade de uma luta coletiva e compartilhada.
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