ARTICULAÇÕES ENTRE O MUNDO INTERIOR PLATÔNICO E A FILOSOFIA BRASILEIRA DE FARIAS BRITO

Autores

  • ANTÔNIO MARCOS DE OLIVEIRA Autor
  • MARCOS ANTONIO ALVES Autor

Palavras-chave:

Filosofia brasileira; Farias Brito; mundo interior; introspecção; Platão.

Resumo

Farias Brito é considerado, por seus estudiosos, um dos pensadores cuja sistematização foi uma das primeiras a compor uma filosofia brasileira original. Contrapondo-se ao naturalismo e positivismo rígidos de sua época, ele buscou fornecer métodos à filosofia que superassem o reducionismo empírico. Em sua obra de maturidade O Mundo Interior (1914), influenciada por pensadores como Bergson, Schopenhauer, por filosofias indianas e ocidental de origem grega, ele defende que a psicologia e a introspecção eram essenciais para tal superação. Sua análise do mundo interior visava fundamentar o conhecimento verdadeiro e o autodomínio racional, baseado na tradição socrático-platônica do “Conhece-te a ti mesmo”. Neste trabalho exploratório, buscamos traçar algumas análises iniciais que consideramos necessárias à contextualização histórica e hermenêutica do pensamento de Farias Brito: a partir da psicologia platônica e a presença do conceito de mundo interior no filósofo grego, realizamos comparação crítica com algumas das afirmações do pensador brasileiro. Perguntamos se há, de fato, as condições necessárias para o pressuposto britiano de que haveria a centralização filosófica de um eu e de um mundo interior na obra platônica. Esse questionamento é essencial para futuros intérpretes que o analisem, pois se corre o risco de Farias Brito estar partindo de um anacronismo e de uma interpretação que não é condizente com a proposta encontrada na filosofia platônica. Tal dúvida conceitual foi levantada por autores como Porter (2023) (How Ideal is the Ancient Self?), Gacea (2019) (Plato and the “Internal Dialogue”: An Ancient Answer for a New Model of the Self) e Cary (2000) (Augustine's Invention of the Inner Self), segundo os quais não existe a noção de mundo interior, ou mesmo de um eu individualizado, entre os filósofos gregos antigos. Há, porém, outros classicistas que afirmam o contrário. Além do mais, o que certamente se sabe é que as Ideias, contra o senso comum que o termo pode sugerir, nos diálogos platônicos não se localizam em nenhum tipo de alma ou “mundo interior”: elas são “externas”. Defendemos a hipótese de que Farias Brito está coerente com o arcabouço metafísico platônico, pois que realmente haveria a descrição de mundo interno e a priorização do desenvolvimento psíquico em Platão. Tal coerência se confirma em nível psicológico e epistemológico. Para Platão, tanto o autocontrole e desenvolvimento pessoal, quanto o alcance do conhecimento verdadeiro, dependem necessariamente de como articulamos o mundo anímico interior em relação ao exterior (seja em relação às Ideias externas, ou em relação às Sensações externas). Assim, cada sujeito deve dar atenção ao arranjo interno de sua racionalidade, emoções e apetites, sem excluir o corpo e o mundo sensível, porém superando-se os seus fenômenos. De fato, mostramos que Pierre Hadot já situava em Platão uma origem e evidência para a sua interpretação de que filosofia grega antiga priorizava o autodesenvolvimento, um modo de vida que se assemelha a um “exercício espiritual”. Assim sendo, há fundamento para leituras como a de Cerqueira (2003) (Maturidade da Filosofia Brasileira: Farias Brito) que, contextualizando a obra de Farias Brito, defende que uma proporção da filosofia brasileira se consolidou a partir dessa vertente distinta de conhecimento de si mesmo oriunda da filosofia socrático-platônica.

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Publicado

2026-10-02