COMEÇO, FUNDAMENTO E TOTALIDADE: A CIRCULARIDADE DO SISTEMA ENCICLOPÉDICO HEGELIANO
Palavras-chave:
Hegel; Circularidade; Sistema.Resumo
A Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio (1830) apresenta a filosofia hegeliana sob a forma de um sistema cuja inteligibilidade depende da articulação entre seus momentos. Hegel caracteriza essa estrutura como um “círculo de círculos” (§15) e afirma que a filosofia constitui um “círculo que retorna sobre si” (§17), no qual o resultado reencontra o começo e explicita retrospectivamente sua posição no todo. Partindo dessas formulações, este trabalho investiga o significado filosófico da circularidade do sistema enciclopédico, com especial atenção à relação entre começo, desenvolvimento, retorno e a base do sistema. O problema central consiste em determinar em que sentido a circularidade não designa apenas uma propriedade formal da exposição, mas uma estrutura decisiva para a autocompreensão do sistema. A hipótese defendida é que, em Hegel, o começo não opera como princípio exteriormente garantido do qual o restante da exposição simplesmente decorreria. Ao contrário, seu significado sistemático somente se explicita plenamente por meio do desenvolvimento que dele procede e a ele retorna. Nesse sentido, a circularidade permite compreender uma relação específica entre começo e a base do sistema: o primeiro momento da exposição não é abolido pelo resultado, mas retomado como momento determinado de uma totalidade mediada. A análise concentra-se em três momentos articulados da Enciclopédia. O primeiro é o começo da Lógica, considerado em relação à ausência de pressupostos e ao problema do início da ciência filosófica. O segundo é a passagem da Lógica à Natureza, especialmente o §244, no qual Hegel afirma que o retorno ao começo constitui, simultaneamente, um progresso. O terceiro é o encerramento da Filosofia do Espírito, sobretudo o §577, em que o percurso enciclopédico retorna ao elemento lógico e recoloca a totalidade sob a forma da Ideia que se sabe a si mesma. A Ciência da Lógica será mobilizada subsidiariamente para esclarecer a relação entre começo, método e resultado, em diálogo com as interpretações de Henrich (1971), Houlgate (2006), Jaeschke (2016) e Bourgeois (2004). Pretende-se sustentar, assim, que a circularidade constitui uma determinação filosófica da própria verdade enquanto sistema. A sistematicidade da Enciclopédia, sob essa perspectiva, deriva da sistematicidade da própria verdade, cuja capacidade de autoexposição faz com que o resultado, ao retornar ao começo, revele retrospectivamente sua necessidade e torne inteligível a totalidade do Sistema.
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