A MÍSTICA E O MST
Palavras-chave:
Mística. Movimento Sem Terra, Identidade ColetivaResumo
O estudo da trajetória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desafia as Ciências Sociais a transcenderem análises políticas rígidas. No centro dessa organização, a mística opera como elemento que articula fé, cultura popular e organização coletiva, conferindo sentido à luta. Historicamente, essa linguagem nasceu vinculada à Igreja Católica progressista, por meio das Comunidades Eclesiais de Base e da Comissão Pastoral da Terra, inspirada pela Teologia da Libertação. O sofrimento camponês foi ressignificado politicamente, convertendo a experiência religiosa em combustível para ação coletiva. Com o crescimento do MST, a mística passou por um processo de secularização: saiu da tutela eclesiástica para ser internalizada pedagogicamente como identidade política do Sem-Terra. Rituais como a cruz na Encruzilhada Natalino e a oposição entre "Arca de Noé" e "Mausoléu dos Faraós" em Itaipu ilustram o uso estratégico da religiosidade como escudo moral contra a repressão. A pedagogia da mística foi incorporada ao cotidiano do movimento, transformando símbolos religiosos em tótens da luta agrária. O conflito no Acampamento Fazenda Annoni marcou a autonomia do MST, que passou a utilizar o marxismo como ferramenta analítica. Atualmente, a mística cumpre funções estratégicas de coesão interna, educação política não formal e resposta simbólica à exclusão social, viabilizando a ação coletiva no campo brasileiro.