DO HABITUS AO ALGORITMO: IDENTIDADE E SUBJETIVIDADE NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Autores

  • NATHIARA CRISTINA CAPOBIANCO Autor
  • KATHY BRIONES BARBI Autor
  • THIAGO ZANELO DE SOUZA Autor
  • VANIA CRISTINA ZANELO Autor

Palavras-chave:

Educação. Algoritmo. Habitus. Teoria Crítica. Plataformização

Resumo

A educação, enquanto prática social e cultural, constitui-se como espaço privilegiado para a formação da subjetividade e da identidade. Discutir emancipação coletiva implica refletir sobre o papel do ensino formal na sociedade contemporânea e sobre como diferentes técnicas de acesso ao conhecimento moldam os sujeitos. Essa reflexão parte de dois referenciais principais: o conceito de habitus, de Pierre Bourdieu (1983), e a crítica à sociedade digital desenvolvida por Byung-Chul Han (2018), articulando-os à presença crescente da inteligência artificial e de algoritmos nas práticas pedagógicas.

Bourdieu (1983) define habitus como um conjunto de disposições incorporadas, duráveis e historicamente situadas, que orientam percepções e ações. Por meio dele, estruturas sociais se reproduzem de forma aparentemente natural, fazendo com que os indivíduos acreditem agir de modo autônomo, quando na realidade reproduzem desigualdades historicamente constituídas. Assim, a escola é analisada como espaço central na legitimação de hierarquias sociais por meio do discurso do mérito acadêmico (Bourdieu; Passeron, 2008).

Na contemporaneidade, os algoritmos emergem como novos dispositivos de organização social, influenciando decisões, interações e formas de aprendizagem. Han (2018) aponta que o neoliberalismo desloca o poder da repressão para a sedução e a autoexploração, produzindo sujeitos voltados para o desempenho contínuo. Nesse contexto, a gamificação de plataformas digitais exemplifica como atividades cotidianas, incluindo práticas educativas, passam a ser organizadas como jogos, com pontuações, rankings e recompensas. O que parece liberdade, na verdade, encobre um regime de controle algorítmico, baseado na captura da atenção e na padronização da experiência.

Sob uma lente bourdieusiana, a gamificação constitui um campo estruturado por regras invisíveis mediadas pelos algoritmos. Nesse campo, os sujeitos desenvolvem um habitus digital, orientado pela lógica da performance mensurável. A violência simbólica se manifesta quando desigualdades estruturais são naturalizadas sob a forma de suposta falta de mérito: estudantes ou professores com menor acesso a recursos digitais são responsabilizados individualmente por não alcançarem bons resultados. Assim, os mecanismos digitais atualizam formas de controle, reforçando desigualdades já existentes.

Bourdieu e Han convergem ao indicar que as formas mais eficazes de dominação são aquelas internalizadas pelos próprios sujeitos. Se, em Bourdieu, a escola reproduz hierarquias sociais, nas plataformas digitais descritas por Han a liberdade aparente é transformada em dispositivo de exploração. Nesse sentido, a gamificação representa uma atualização da violência simbólica em tempos de psicopolítica, onde a autonomia se converte em ferramenta de controle.

Essa discussão dialoga com as reflexões de Adorno e Horkheimer (1985). Em obras como Dialética do Esclarecimento e Educação e Emancipação (Adorno, 1995), os autores analisam a racionalidade técnica como instrumento de dominação social. Para eles, as tecnologias não são neutras: seu impacto depende dos usos e interesses que as orientam. A crítica à introdução de novas mídias, como a televisão, na educação do século XX mostra que os debates atuais sobre algoritmos e inteligência artificial têm raízes históricas semelhantes: o problema não seriam as técnicas ou ferramentas, mas o uso atribuído à elas para a dominação e o estrangulamento da experiência coletiva, experiência essa que podem ser suporte para uma emancipação coletiva e uma relação com os espaços de constituição social para promover a igualdade, mas usualmente se apresentam para promover a pobreza e a barbárie (Adorno; Horkheimer, 1985).

Um exemplo atual é a transformação no algoritmo de buscas do Google, que passou a fornecer respostas geradas por inteligência artificial diretamente, sem direcionar o usuário a diferentes fontes (Germain, 2024). Essa mudança afeta o habitus de pesquisa, especialmente na educação básica, reduzindo a interação com múltiplas referências e promovendo uma experiência de aprendizado mediada por respostas padronizadas. Nesse processo, a busca por conhecimento se torna produto de empresas privadas que controlam os fluxos de informação.

As políticas públicas educacionais também incorporam essa racionalidade instrumental. Em São Paulo, a Secretaria Estadual da Educação implementou plataformas digitais gamificadas, promovendo rankings, medalhas e metas como ferramentas de gestão e avaliação. Embora apresentadas como inovação, essas políticas têm sido criticadas por falta de transparência e pelo risco de aprofundar desigualdades (GEPUD; REPU, 2025). Um caso emblemático é o teste do Sistema de Avaliação de Desempenho Inteligente (SADI), desenvolvido por uma empresa goiana, que filmava alunos em sala de aula para compor históricos educacionais baseados em inteligência artificial. O projeto foi posteriormente abandonado diante das repercussões negativas (Bernardo, 2025).

Essa realidade revela uma transição: enquanto o habitus se forma na interação social ao longo do tempo, os algoritmos atuam em tempo real, moldando comportamentos por meio da coleta e predição de dados. No contexto escolar, isso se traduz na prescrição automatizada de percursos de aprendizagem, na coleta massiva de informações e na redução da autonomia docente. Embora tais práticas possam aumentar a eficiência, levantam preocupações quanto à homogeneização das experiências educativas e à invisibilização de dimensões culturais não quantificáveis.

Este trabalho tem como objetivo analisar os impactos dessa transição do habitus ao algoritmo na constituição da subjetividade e da identidade, com foco nas práticas pedagógicas contemporâneas.

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Publicado

2026-04-29

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