ENSINO DE SOCIOLOGIA NA EJA: REFLEXÕES A PARTIR DO ESTÁGIO NO CEEJA DE MARÍLIA-SP

Autores

  • FERNANDA ROCHA MACEDO Autor

Palavras-chave:

Ética medieval; Cristianismo; Santo Agostinho; Tomás de Aquino; Fé e razão.

Resumo

O presente trabalho resulta da experiência de estágio no Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) Profa. Sebastiana Ulian Pessine, em Marília-SP, realizado no âmbito das disciplinas de Metodologia do Ensino de Sociologia I e Estágio Supervisionado II. Inspirada na concepção de Florestan Fernandes (1959), parte-se do entendimento de que a prática sociológica ultrapassa a mera descrição de fatos, exigindo interpretação crítica das relações sociais que constituem a realidade educacional. O objetivo central foi refletir sobre o cotidiano escolar, as práticas pedagógicas em Sociologia e os desafios da docência na EJA, considerando as desigualdades estruturais de classe, raça e gênero, mas também as possibilidades de transformação social a partir da educação. Nesse sentido, duas questões orientaram a análise: “Currículo: o que é e a quem serve?” e “Como a Sociologia e os professores percebem a(s) juventude(s) nas escolas?”. A metodologia utilizada foi de caráter qualitativo e se estruturou em três eixos principais: a observação participante, os diálogos com sujeitos da escola e a análise documental. Na observação participante, buscou-se acompanhar a dinâmica cotidiana da instituição, desde a chegada dos estudantes até a interação com professores e a realização de atendimentos pedagógicos. Essa presença no espaço escolar permitiu registrar não apenas os aspectos formais do funcionamento do CEEJA, mas também os elementos simbólicos e culturais que atravessam as relações ali estabelecidas. Além disso, foram realizadas conversas informais com gestores, professores e estudantes, que, de forma espontânea, relataram suas trajetórias escolares, seus desafios em conciliar estudo e trabalho, bem como as expectativas em relação à certificação e ao futuro profissional. Por fim, a análise documental abrangeu o Projeto Político-Pedagógico da escola, os materiais didáticos adotados — especialmente as apostilas — e as diretrizes do Currículo Paulista e da BNCC, buscando compreender como as políticas educacionais se traduzem no cotidiano pedagógico do CEEJA. Essa triangulação metodológica possibilitou uma leitura mais ampla da realidade, articulando os discursos institucionais com as práticas e as vivências dos sujeitos. Ao contrário da EJA presencial tradicional, o modelo do CEEJA organiza-se de forma flexível e individualizada, permitindo que os estudantes definam seus percursos formativos de acordo com suas necessidades. Essa característica garante maior acesso a jovens e adultos que conciliam trabalho, estudos e responsabilidades familiares, mas ao mesmo tempo apresenta limites significativos. Como apontam Xavier (2022) e Mészáros (2008), a flexibilidade, quando não acompanhada de vínculos pedagógicos contínuos, pode ser transformada em precariedade, reduzindo a experiência educativa a um processo rápido de certificação e esvaziando o caráter formativo que deveria estar no centro da EJA. Durante o estágio, foi possível observar estudantes circulando sozinhos pelos corredores, tentando compreender os materiais sem apoio docente, ou aguardando atendimento em um ambiente silencioso, marcado pela ausência de trocas coletivas. Esses momentos revelam como a promessa de autonomia pode se transformar em solidão pedagógica. Outro ponto relevante foi a pluralidade das juventudes presentes na instituição. Em oposição à noção homogênea de “juventude”, é possível identificar múltiplas juventudes atravessadas por desigualdades de classe, gênero, raça e território, conforme já analisado por Dayrell (2007) e Nonato e Corrochano (2021). O estágio revelou trajetórias diversas: estudantes migrantes da Guiana Francesa, Moçambique, Haiti, Angola e Venezuela; jovens LGBTQIA+ que abandonaram a escola regular após experiências de transfobia; além de trabalhadores que conciliam longas jornadas de trabalho com os estudos. Essas experiências evidenciam que a evasão escolar não pode ser interpretada apenas como escolha individual, mas como resultado de mecanismos de exclusão estrutural, conforme discutem Bourdieu e Passeron (1975). Em muitos casos, não é o jovem que foge da escola, mas sim a escola que o expulsa de maneira indireta, ao não reconhecer sua realidade social e suas identidades. No que diz respeito ao currículo, observou-se que, embora a proposta pedagógica do CEEJA esteja alinhada ao Currículo Paulista e à BNCC, sua aplicação se apresenta frequentemente de forma conteudista e distante das vivências concretas dos estudantes. Os materiais didáticos, organizados em apostilas, funcionam como o principal recurso de aprendizagem, mas sua eficácia depende de uma mediação pedagógica que nem sempre ocorre de forma sistemática. Essa lógica reforça a ideia de autonomia, mas, como analisa Apple (2006), quando desvinculada de práticas de acompanhamento, acaba funcionando como um mecanismo meritocrático, no qual o estudante é responsabilizado individualmente por seu sucesso ou fracasso escolar. Assim, sob a aparência de flexibilidade, o modelo pode reproduzir desigualdades e invisibilizar saberes produzidos nas experiências de vida. A experiência de estágio possibilitou compreender que a Sociologia, nesse contexto, pode desempenhar um papel central para a valorização das trajetórias dos sujeitos e para o enfrentamento das desigualdades. Ao ser trabalhada como disciplina crítica, torna-se espaço de reconhecimento, reflexão coletiva e fortalecimento das juventudes, principalmente em um modelo educativo marcado por contradições. Para que o CEEJA seja não apenas um espaço de certificação, mas também de formação cidadã, torna-se necessário repensar o currículo, fortalecer os vínculos pedagógicos e investir em práticas inclusivas que deem visibilidade às experiências e identidades dos estudantes. Dessa forma, a análise evidencia que o estágio em EJA vai além de uma experiência de formação docente: trata-se de um processo de imersão em uma realidade complexa, que permite refletir sobre a escola como espaço de disputas, permanências e resistências. Reconhecer as contradições da EJA e do modelo CEEJA é também reconhecer a urgência de uma educação que vá além do conteúdo, que seja crítica, inclusiva e capaz de responder às múltiplas juventudes que dela participam.

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Publicado

2026-04-30

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