ÉTICA NA IDADE MÉDIA

Autores

  • LUCIA HELENA ZANETTI LIMA NEGRO Autor
  • FABIANO BUENO DE SÁ Autor

Palavras-chave:

Ética medieval; Cristianismo; Santo Agostinho; Tomás de Aquino; Fé e razão.

Resumo

A Idade Média foi um período histórico marcado por profundas transformações espirituais, sociais e culturais, cujo epicentro foi a consolidação do cristianismo como fundamento da vida coletiva. Santos (2020, p. 4) esclarece que é na Idade Média que, “a ética das virtudes, reconfigurada pelos valores inerentes ao cristianismo, apresenta-se como paradigma da excepcionalidade do ser humano que consegue elevar-se acima da rudeza e dos vícios, sintonizando-se com uma vida orientada para o plano divino”. Nesse contexto, a ética e a educação estiveram intimamente ligadas aos valores cristãos, sendo a igreja a principal detentora do saber e orientadora dos costumes. Portanto, de acordo com Cambi (1999, p.146), “da Igreja partem os modelos educativos e as práticas de formação, organizam-se as instituições ad hoc e programam-se as intervenções, como também nela se discutem tanto as práticas como os modelos”. Dessa forma, a ética na Idade Média é o eixo norteador deste resumo, pois é tida como um sistema de pensamento que buscou agregar a revelação cristã e a racionalidade filosófica em um contexto marcado pela hegemonia da Igreja e pelo estabelecimento do cristianismo como fundamento da vida social, política e cultural. Ademais, o presente resumo tem por objetivo discutir a ética no período medieval a partir de dois dos maiores pensadores cristãos da época: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. A partir da análise de suas contribuições filosóficas, discute-se a construção de sistemas éticos baseados na teologia e na razão. O texto também busca evidenciar como a síntese entre a fé e a razão, promovida por eles, moldou uma visão de mundo orientada para o bem comum, a justiça e a moralidade cristã.  A metodologia utilizada neste estudo foi a pesquisa bibliográfica de caráter analítico e interpretativo, fundamentada tanto em fontes primárias quanto em secundárias (GIL, 2008). Como referências primárias, destacam-se obras clássicas de Santo Agostinho, como Confissões (1997), e de São Tomás de Aquino, especialmente a Suma Teológica (2012), além das Escrituras Sagradas, em particular o Antigo e o Novo Testamento. Dentre as principais fontes secundárias, foram utilizadas obras de estudiosos renomados da filosofia e da história, como Cambi (1999), Libera (1991), Gilson (2006), Valle (2023), Santos (2020) e Pires (2018), que permitiram a contextualização do pensamento da ética medieval e sua relação com a educação, a política e a cultura. Esses referenciais teóricos permitiram analisar criticamente como a síntese entre fé e razão, defendida por Agostinho e Tomás de Aquino, estabeleceu um modelo ético-teológico que influenciou a moralidade, a vida social e o pensamento filosófico da Idade Média, cujos efeitos continuam relevantes até a atualidade. Agostinho ficou conhecido como um dos Pais da Igreja, ou seja, termo “atribuído pela comunidade aos bispos e mestres, com reverência e amor, de origem eclesiástica”. (ALTANER; STUIBER, 1988, p. 18). O bispo de Hipona exerceu tamanha influência sobre a Igreja ocidental, que perpetua-se até a atualidade, pois “seu pensamento foi, realmente, uma síntese orgânica da Patrística e um ponto de continuidade - talvez o máximo - entre cultura antiga, pensamento grego e cristianismo, de modo a ocupar, neste último, o papel de guia constante e agudo do pensamento cristão (seja na Idade Média seja na Modernidade), em razão dos temas de que trata, da audácia com que os trata e do método - inspirado em Platão e no seu idealismo - com que os enfrenta”. (CAMBI, 1999, p.146)  No dualismo maniqueísta, Agostinho havia crido que no Universo havia apenas duas forças: o bem e o mal, porém, essa visão não era mais compatível com a supremacia, perfeição e bondade do Deus cristão. Foi então que encontrou a origem do mal na vontade humana, esta, para Agostinho, é decisiva em suas escolhas, fruto da luta interna que ocorre em cada ser humano, conceito este abordado também por Paulo, em sua Carta aos Romanos no capítulo 7. Assim, além da vontade, que permite ao homem fazer escolhas, outro elemento da essência humana seria a razão, a capacidade de conhecer, resquício da influência do pensamento grego que reconhece que ser o homem “uma alma que se serve de um corpo”. (VALLE, 2023, p. 59) Porém, para Agostinho, o homem fez da sua alma essencialmente corrupta, assim, a cidade terrena não pode evitar a corrupção, “apenas na cidade de Deus, cuja cidadania é dada através da graça, o homem pode completar-se, ou seja, chegar à virtude (conceito que ganha um entendimento totalmente renovado no medievo)”. (PIRES, 2018, p. 7). Ao invés da ideia da razão ter domínio sobre as paixões (πάθος páthos), conforme o conceito de ética da antiguidade, Agostinho aponta que o homem, para alcançar a virtude (ἁρετή areté), deve colocar-se sob a autoridade divina, que domina sobre todas as coisas, tanto o homem quanto a cidade, como seu guia moral e social. Assim, Agostinho chegou à conclusão de que a graça divina poderia fazer a vontade humana corrompida ser boa novamente, levando o indivíduo a direcionar sua liberdade ao verdadeiro bem para o qual ele havia sido criado, tornando-se, assim, incapaz de fazer o mal, atingindo, assim o da liberdade humana, uma vida moral sem o mal, sem pecado. (VALLE, 2023, p. 61) São Tomás de Aquino (c. 1225 – 7 de março de 1274) foi um dos mais importantes e influentes teólogos da Idade Média. Um de seus principais e mais famosos argumentos, temos “As cinco vias para a existência de Deus”, Tomás de Aquino propôs cinco argumentos racionais para provar a existência de Deus, com base na observação do mundo. O centro da ética de Tomás de Aquino é a investigação do homem enquanto entidade dual, de corpo e alma, de compreender não somente o divino, mas as formas como o divino se relaciona com o mundo material, como se faz presente. Dessa intersecção entre fé e razão, Aquino vai buscar no conceito de felicidade (εὐδαιμονία eudaimonia) um caminho para racionalizar o pensamento acerca do divino. Ele argumenta que, embora na vida material seja possível encontrar a felicidade, ela é inerentemente limitada. Ele estabelece uma distinção clara entre a felicidade imperfeita ou terrena, que é realizada por meio da atividade racional e das virtudes da felicidade perfeita (beatitude), que consiste na união com Deus na vida eterna. Ao fazer essa lógica, Aquino aponta que a moralidade não é contrária ao divino, mas duas partes distintas da mesma fonte. Tomás de Aquino conciliou tão bem a fé e a razão, que a sua obra “Suma Teológica” pode ser considerada como uma preparação para a fé. (VALLE, 2010, p. 62) A análise das contribuições de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino revelou como a síntese entre a fé e a razão estruturou um modelo ético capaz de conduzir o comportamento individual, a organização social e a reflexão filosófica, estabelecendo parâmetros que ainda hoje influenciam a tradição ética ocidental. Assim, pode-se concluir que a ética medieval deixou um legado intelectual e moral de grande relevância, cuja influência permanece viva na reflexão ética contemporânea, reafirmando a importância de compreender a história da moralidade para orientar a construção de sociedades justas e indivíduos conscientes de sua responsabilidade diante do bem e do mal.

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Publicado

2026-04-30

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